quinta-feira, julho 28, 2005

 
Cartas abertas para mim mesma. Engoli a chave da gaveta de guardados, cingi as melhores coisas.
(acostumar-se a novas geografias e arquiteturas é como engolir uma pedra de gelo rapidamente, e deixa-la marinando no estomago por horas).

Perguntei: chegou em casa?
Ele disse: Sim. tô na casa de Rita.

Com todas as possibilidades do mundo, de ser quem eu sou, ou ser outra e contrariar todos os espectadores, eu escolhi dormir com a porta fechada e um feixe de luz bem fino na minha direita.
De manhã cedo estou sempre predisposta a amar e odiar os meninos, não necessariamente nesta ordem, mas sempre mesmo nesse horário. Tanto que, mesmo parecendo o contrário, minha tendência pacificadora libriana outonal se sobrepõe hora sim, hora não. O rapaz pensaria que minha alma precisa avançar mais um degrau em busca da iluminação, e depois da iluminação outra iluminação ou pozinhos em direção ao céu que cintila. E eu rezo olhando para baixo. Não me importo que vejam.

quarta-feira, julho 27, 2005

 
Ando atacada por desejos tão femininos. Pretendendo afirmar conjugações.
Habitações. Inundações.

Se eu me disponho a limpar os peixes.
Lavar os gatos.
Alimentar os passaros.
Um pote de hortelã, um vidro de chocolate ao leite e muitas flores no jarro da mesa de jantar.

Blindness.
E depois sonhar de novo com as asas, e gostar do azar de se estatelar no chão.
A partir de então tracei meu destino,

sem curvaturas, nem rasuras, nem gestões. Pensei numa Argentina para ser traduzida,
e numa narrativa diletante e inescrupulosa para publicar em jornais diários.
Sou fetichista, adoro coisas com a letra A:
pó.

quinta-feira, julho 14, 2005

 



"La vida perdida para la literatura por causa de la literatura. Por hacer de mí misma un personaje literario en la vida real fracaso en mi intento de hacer literatura con mi vida real, ya que la última no existe: es literatura."
alejandra pizarnik

terça-feira, julho 12, 2005

 
contenções . liquidas . em tese
munições . óbvias . em suma
orações . bélicas . de praxe
sexo . umido . em foco

(preparo a caixinha e o café, ja ja)
vinde a mim os necessitados.
amém.


domingo, julho 10, 2005

 
(...)
"let
me
sit
on
the
top
of
your
knee"
(..)

sexta-feira, julho 08, 2005

 
hologênese. mudei os moveis da salinha de lugar. comprei uma rosa e pus numa tulipa de cerveja. Escutei Dylan pra salvar meu dia e ajudar no curso dos gestos. Beijei o moço com gosto de ervas, o que me pareceu muito mais tenro - ao passo que levemente ironico, inspirado. nada da gata voltar, tenho medo que chutem ela feito rata parida.
Oh, Deeeeeeeus, que chilique barato.

 
das duas, uma:
ou a gota no vidro é uma contravenção poética,
ou não é absolutamente nada.
(fico de molho, penduro os pezinhos no varal, horas morcegando. depois dou o leite de Norma, olho pra ela implorando carinho. leio Mansfield, coisinhas de kezia, que é a minha preferida. espero a fome, como feito uma vaca gorda: granola e mel. ou nem como. tenho muito sono e um ar borocochô dos diabos. hoje eu vi uma sombra na cozinha e pensei nas minhas confabulações espirituais, ri do jeito que torci os olhos, ri da minha pele e da unha encravada. Alguem soltou os cachorros como no conto de Caio Fernando. Tremi toda e quebrei a xicara)

quarta-feira, julho 06, 2005

 
o homem vai embora.
somente agora eu sinto as sobrancelhas franzirem e o leve tom amargo no discurso da partida.
agora sou menos aprazivel. sou feito o sapo de clarice pedindo pra fumar.

 
Lady Day com um biliro sangrando na testa, fincado entre os fios e as carnes, segurando uns poucos cabelinhos bissextos. Impassivel, berrava no microfone, blood on the leaves, and blood at the roots.
(é o conto do dia)

segunda-feira, julho 04, 2005

 
NOTÍVAGA.
Depois se assaltar as casinhas
e prender as bonecas entre os dentes de leite

 
"Não, as palavras não fazem amor
fazem ausência
Se digo água, beberei?
Se digo pão,comerei?"
(alejandra pizarnik)


 
Eu mantenho, embora não adiante, os cabelos longuissimos presos no alto. Acompanhando, ofereço uma magreza sibilante, e um nariz que pontua o rosto no tom exato - embora exagerado se em conjunto com o queixo anguloso. Corto o alho em fatias finas e o banho no azeite junto com o açafrão vermelho e a pimenta de cheiro. O chutney me ajuda a adoçar os labios, enquanto sorvo o vinho perfumado - com um sabor sobretudo de maçãs e especiarias - intenso e levemente ácido, fazendo um suave movimento sugando as bochechas. Aguardo as suspeitas que suscito e incito, observando o jeito que mastigas a refeições que eu preparo. Adoro a forma como degustas as coisas que toco, mas por mim bastaria uma fruta e uma superficie nua pra me encostar. O teu rosto encosta em meu colo sem nenhuma pureza, enquanto escuto "she knows that i'm not afraid to look at her...she's good to me". A voz dele, assim rouca e afônica, assim assim pequena e rouca, e doce e rouca, me mantem num ritmo indissoluvel. E eu simplesmente não posso parar. Preparo uma infusão das ervas que tinha no armário, e ponho na altura da tua testa, para torturar o olfato. Deixo os tecidos pairarem na altura dos joelhos, adormecidos, enquanto penso em qual parte desejo que finde.

domingo, julho 03, 2005

 
Pode ter medo. Eu nunca sopro.

 
Aprenda que não se constroi frases iniciadas daquela forma. Nunca, nem em segredo.

 

triscando somente

Reencostar na superficie escolhida chega a ser um dever missionário.

Continuo, subalterna, orientando meus passos e meus prazeres para o encaixe. O assombroso encaixe que tem data de morte.

Sou um pouco Norma na minha preguiça, na minha ferocidade, na impaciencia para que o leite se apresente quente e alvo no pote vermelho.

E os gestos assumem o tom da enxaqueca, enquanto o ritmo destoa incansável.

Fiquei sabendo que há os que cantam como bebem, bebem como escrevem, escrevem como cantam, e mesmo assim são indescritiveis.

This page is powered by Blogger. Isn't yours?