sábado, junho 18, 2005

 

quarta-feira, junho 15, 2005

 
Ter ataques histéricos hoje em dia é muito interessante e desejável. Depois da casa posta em chamas, na noite da partida de Danilo, Rita era muito mais mulher. Ser apocalíptica é uma qualidade muito invejada por todos aqui. Rita havia sentado na cadeira de um bar do centro da cidade, muito orgulhosa. Pintou-se toda antes de jogar o cigarrinho no armário das crianças. Enrolou-se num pedaço de seda carmim, e pendurou aqueles grandes brincos de ametista. Danilo levou o aquário para casa e pôs a cabeça dentro.

terça-feira, junho 14, 2005

 
"Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta"
hilda

 
3x4: liege
"tem sido tao desconcertante que eu fiquei sensivel"
Oculto a falha no rosto, um leve tracejado cor de ambar na altura do olho esquerdo.
Qualquer piscadela desato uns cascos desminliguidos pelos buraquinhos.Uma vergonha, Deus.

sábado, junho 11, 2005

 
Eu havia me enganado. Na verdade tem o tempo de um filho. Ou melhor, de uma filha, que mulher é mais forte, mais misteriosa, e eu gosto da feminilidade do nosso amor. (Eu tenho sempre um subtexto pra você na manga, observa).
Também eu guardo, a revelia, mais desejos do que posso. Gosto dos invernos nuviosos porque lembro, assemelho-me. Queria fazer filmes e morar em santa tereza junto do piano, olhar tudo novamente, e saber que o retorno se faz sereno.
Suplico alguma lealdade do destino.

 
Andei sendo, mas nem sou.
Preciso reeleger meus homens, minhas mulheres, meus meninos
solidao doi.coisa criminosa. cisma.

 

"sou mais Bronte, qualquer das tres"

Pus o vestido, mostrei as peles, desci as escadas.
Deixei a voz macia, entoei... I feel so funny and I fell so sad

sexta-feira, junho 10, 2005

 
Ando gostando mais dos substantivos. Essa coisa adjetivosa anda me escancarando demais.
Auspiciosa, hum? Ou uma grande melancia sangrando aberta?
Junto os sapatinhos um do lado do outro, examino,
secretamente.
Tenho muita inveja desse gosto,
e preciso de mais ervas pro chazinho das doze xicaras.

 
Você bem que parece com as trinta pessoas mais importantes da minha vida, bem que pode ser. Esses dentes assim pra dentro, esse queixo espartano, mas. Tenho vontade de te importunar somente pela tua doçura e pela tua antipatia controversa. É um prazer tácito, coisa insana! Deixa? Es tão ridícula e bonita. Calada feito um bicho, feito uma coruja. A experiência também serve pra nossa genialidade, Rita, deixe disso. (Sorvia o café, e aquele aroma embebia a conversa, dando um ar campestre àquilo tudo. Rita se sentia uma vaca pastando, uma cabra com um cão no encalço). Sabe aquele dia que você veio e falou pela primeira vez, com aquela agudez que te é característica? Rita, querida, você é tão desafinada falando que se não tivessem me dito que cantavas bem, eu nunca suporia, mas.
E você parecia flutuar naquela decadência, dizendo sim para tudo, como se eu fosse algo muito precioso. Você é mesmo muito estúpida, Rita. (E ria, ria com umas notas gravíssimas, exigidas pelo tom de deboche. E sorvia o café feito um coronel. Por pouco não cantava uma polca).

domingo, junho 05, 2005

 
Meu alterego em construção .
Separa o resto do corte do resto da carne, que a sobrevida faz o restante.
Close nos pes, nas asinhas. Tanta delicadeza merece um claustro.
"tom sur tom"

 
Tenho pensado muito em Berna, apesar de tudo o que significa pensa-la. Por muitos séculos a tive aprisionada aqui, dentro do armário, roçando as perninhas para se ajeitar no cubículo embaixo da pia da cozinha. Temia muito Berna, bem como as senhoras temem que as baratas escapem pelas frestas, assustadoras, enormes. Tinha muito medo das suas patinhas que me afundavam nas recordações do seu rosto tão firme, tão feminino. Imaginava que ela coçava as orelhas, tirava uma sujeira aqui outra ali. E pronunciava o próprio nome: Ber - na. De - te. Deita-te, Berna bernando na caverninha que fica embaixo do armário azul claro da cozinha, e chora com voz de sinusite. Uma gazelinha. Procurei sempre não pensa-la de todo. Imaginava um pedaço do nariz pequeno cheirando o encanamento, as delicadezas escondidas entre as coxas, a unha do indicador direito - levemente aplanada no centro - procurando um buraquinho na porta. Ao passo que sorria ao vê-la, chafurdar os possíveis closes da minha prisioneira tornaram-se horas intermináveis. Ate que vi meus dias consumidos por essa atividade inútil e dolorosa. Mandei fazer uma chave. Tranquei o armário. Sinceramente, tranquei o armário. (continua)

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