domingo, junho 05, 2005

 
Tenho pensado muito em Berna, apesar de tudo o que significa pensa-la. Por muitos séculos a tive aprisionada aqui, dentro do armário, roçando as perninhas para se ajeitar no cubículo embaixo da pia da cozinha. Temia muito Berna, bem como as senhoras temem que as baratas escapem pelas frestas, assustadoras, enormes. Tinha muito medo das suas patinhas que me afundavam nas recordações do seu rosto tão firme, tão feminino. Imaginava que ela coçava as orelhas, tirava uma sujeira aqui outra ali. E pronunciava o próprio nome: Ber - na. De - te. Deita-te, Berna bernando na caverninha que fica embaixo do armário azul claro da cozinha, e chora com voz de sinusite. Uma gazelinha. Procurei sempre não pensa-la de todo. Imaginava um pedaço do nariz pequeno cheirando o encanamento, as delicadezas escondidas entre as coxas, a unha do indicador direito - levemente aplanada no centro - procurando um buraquinho na porta. Ao passo que sorria ao vê-la, chafurdar os possíveis closes da minha prisioneira tornaram-se horas intermináveis. Ate que vi meus dias consumidos por essa atividade inútil e dolorosa. Mandei fazer uma chave. Tranquei o armário. Sinceramente, tranquei o armário. (continua)

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